Até finais do século XV, a Igreja de Arruda dos Vinhos era dedicada a Santa Maria de Arruda. Segundo a tradição oral, tentando escapar a um surto de Peste que assolava Lisboa, D. Manuel terá permanecido com a corte na Vila de Arruda por aquela altura.
Em acção de graças por se ter salvo e à sua família, o monarca terá ordenado reconstruir a igreja que existia e mandado mudar a invocação de Santa Maria de Arruda para Nossa Senhora da Salvação. Tais obras seriam realizadas já no reinado de D. João III entre 1528 e 1531.
Porquê Salvação? Encontramos duas acepções. Uma, talvez a mais importante em termos teológicos, onde a Senhora tem essa invocação porque ela foi medianeira da redenção do género humano quando Maria acede à proposta de Deus, feita através do Anjo Gabriel, em se tornar a Mãe de Cristo feito Homem. A outra , aquela que se insere no contexto de Arruda, é a acepção mais corrente e que veicula a preservação da felicidade global da pessoa e/ou da família, da saúde, do bem estar, da prosperidade...
Esta protecção divina revelar-se-á noutros episódios da história de Arruda, sendo inclusivamente defendida por alguns autores que a nova invocação não é devida ao D. Manuel mas àqueles que partiam para as navegações que rogavam a protecção da Virgem. Armando Vitorino refere que António Sande e Castro, natural de Arruda, quando partiu para Índia, para onde fora nomeado governador, tão devoto era de Nossa Senhora da Salvação, levou clandestinamente consigo uma das mãos da Sagrada Imagem (…).
A dicotomia Protectora/Protegida verifica-se ainda hoje, na relação dos Arrudenses com a Virgem. Sempre em sinal de gratidão para com ela, os seus devotos cuidam e protegem-na com todo o seu fervor. Terá sido assim por ocasião do Terramoto de 1755, temendo o que pudesse acontecer à sua Protectora, a população, ignorando a sua própria segurança, acorreu à Igreja para de lá retirar a imagem de Nossa Senhora, com o intuito de apaziguarem "os demónios" que faziam tremer a Terra mas ao mesmo tempo salvarem a sua Protectora.
Séculos mais tarde, perante a ofensiva Francesa, a população de Arruda não conseguiria proteger da acção dos Homens o que tinha conseguido proteger da acção da Natureza.
A História dos Homens congrega muitas ironias, e ao estudarmos a história das invasões francesas e as suas repercussões na vida dos Arrudenses, verificamos que a primeira vitima (julgamos que na 1.ª invasão) terá sido mesmo a imagem de Nossa Senhora da Salvação.
Segundo, Júlio Gil, em "As Mais Belas Igrejas de Portugal", terá sido durante as invasões francesas que foram roubadas todas as alfaias e objectos de prata da matriz, nem escapando o revestimento do espaldar da cadeira, onde se sentava a estátua da Virgem que, segundo o autor, também era de prata. Este terá sido o episódio que todos recordam, como o mais afrontoso e ofensivo ao património de Arruda.
Mas reiterando os aspectos irónicos que o estudo da história nos revela, a Igreja Matriz viria a ser palco de um outro episódio na 3.ª invasão, conforme nos descreve um militar inglês: «No dia depois de nossa chegada, o Capitão Simmons e eu tivemos a curiosidade de ver a igreja por dentro, construída num estilo de magnificência para tal vila, e que não foi danificada. O corpo de uma pobre mulher velha estava lá, morta diante do altar. Parecia que estava demasiado fraca para se juntar na debandada geral, arrastando-se para este local com um último esforço da natureza, e tendo ali expirado. Determinámos imediatamente que, como ela foi a única pessoa que havíamos encontrado na vila, viva ou morta, deveria ter mais glória na sepultura do que parecia ter tido fora dela; Assim reunindo as nossas forças, conseguimos levantar uma laje de mármore, lindamente enfeitada com brasão armorial, colocámos o corpo dentro, e tapámos novamente com cuidado.»
Encontrada na base do altar da Virgem, foi dignificada com a recompensa de aí eternamente repousar, como se de um trono se tratasse...
Este desígnio divino estará presente na cultura e no modus vivendi dos Arrudenses. As vítimas decorrentes desta época não conhecemos em rigor, apenas se sabe que Homens e Mulheres de Arruda, como de outras localidades nos arredores das Linhas fortificadas, saíram em protecção da 3.ª Invasão Francesa, abandonando os seus bens (casas e terras), passando necessidades, mas firmes na defesa de Lisboa, sendo esse um factor decisivo para que o sistema defensivo designado por Linhas de Torres tivesse o sucesso que lhe é atribuído até aos dias de hoje.
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FERREIRA, Paula e CÂMARA, Paulo (2006), Nossa Senhora da Salvação - A Magia da Festa, Município de Arruda dos Vinhos.
GIL, Júlio, As mais Belas Igrejas de Portugal.
KINCAID, John (1830), Adventures in the Rifle Brigade, London, Oxford University. |