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Rota Histórica das Linhas de Torres
A Vila de Arruda e as Invasões Francesas

Apesar da 1.ª Linha de Defesa de Lisboa cortar toda a Península de Torres Vedras, a frente francesa não atingia dois terços desta extensão, tendo as suas forças fraco campo de manobra. Situaram-se entre Vila Franca de Xira e a passagem de Runa. Todo o exército luso-britânico ficou recolhido nas Linhas, “com exceção da Divisão Ligeira e da Brigada de Pock, que, devendo entrar por Arruda, se demoraram em Alenquer e ali se deixaram surpreender pelas tropas de Montbrun, abandonando precipitadamente aquela vila, com a perda de bagagens e com bastantes feridos, dirigindo-se para o Sobral, tendo na noite de 11 para 12 realizado uma marcha de flanco, junto às Linhas, para ganhar Arruda, cujo vale, durante todo esse tempo, ficou perigosamente aberto ao inimigo.” (As famosas Linhas de Torres in A HORA)

Quando Montbrun avançava para as Linhas, havia um espaço de quase 50km, de Alhandra ao Sobral, sem um único defensor. Arruda encontrava-se totalmente sem forças de resistência. A este propósito escreveu o Capitão John Kincaid (1830) nas “Aventuras na Brigada da Espingarda” o seguinte:

«A nossa longa retirada terminou à meia-noite, com a chegada à pitoresca vila da Arruda, que estava destinada a ser o posto de piquete da nossa Divisão (Divisão Ligeira) defronte das Linhas fortificadas. Tal como todos os lugares da linha de marcha, encontrámo-la totalmente deserta, e os seus habitantes tinham fugido com tamanha pressa, que os únicos objectos que levaram consigo foram as chaves das portas das suas casas; de modo que, quando entrámos, utilizando a chave usual -  disparando uma bala de espingarda através do buraco da fechadura: ela abre todas as fechaduras -  ficámos agradavelmente surpresos, ao verificarmos que as casas estavam, não só perfeitamente mobiladas, como a maior parte delas tinham comida na despensa e uma abundante provisão de bons vinhos na adega; e que, efectivamente, elas só necessitavam de alguns hóspedes, capazes de apreciarem as coisas boas que os deuses haviam providenciado; e diabos me levassem, se não éramos nós próprios as pessoas capazes de o fazer!

Aqueles que desejam uma descrição das Linhas de Torres Vedras podem desistir. Eu de nada sei, excepto que me contaram que um dos seus limites se situava no Tejo e o outro algures, junto do mar; e vi com os meus próprios olhos uma variedade de redutos e fortificações nos vários montes que se erguem no meio. O que eu sei, no entanto, é que desde então, corremos com os franceses dos lugares mais formidáveis e mais resistentes; e, diga-se com o devido respeito, julgo que o Príncipe d'Essling deveria ter tentado a sua sorte contra as Linhas visto que ele só poderia ter sido derrotado, combatendo, tendo acabado por o ser, posteriormente, sem combate!

Em tempo muito quente ou muito húmido, era costume ficarmos abrigados na vila, durante o dia, mas voltávamos sempre ao nosso bivaque, nos montes, durante a noite. Vivíamos, efectivamente, na abundância, enquanto aqui permanecíamos; tudo o que víamos era nosso, visto que, aí, ninguém tinha pretensões mais legítimas; e cada campo era uma vinha.

Massena abandonou a sua posição, fronteira à nossa, na noite de 14 de Novembro, deixando algumas sentinelas, feitas de palha, a ocuparem os seus postos habituais; e, na neblina da manhã seguinte, pensámos tratar-se de reforços mais bem alimentados, vindos da retaguarda, e já o dia ia adiantado quando descobrimos o erro e avançámos na sua perseguição.» (CMTV, 2001: 37)


A Vila ficou totalmente desprotegida, a norte das Linhas, e quando o Marechal Massena, “depois de ter chegado diante das Linhas, mandou efetuar os primeiros reconhecimentos, com alguma esperança de que elas pudessem ser vulneráveis pelos vales de Calhandriz e de Arruda - onde sempre estacionou um posto de Cavalaria ligando os 2.º e 3.º Corpos -, de facto as mais suscetíveis de ser transpostas ou tornear a posição de Alhandra” (As famosas Linhas de Torres in A HORA).

Mas sobre estes vales (Calhandriz e Arruda) estavam os redutos, e todos eles estavam cortados com defesas ciclópicas, enormes abatizes de carvalhos e castanheiros arrancados da terra todos inteiros, com as suas enormes raízes, transportados com esforços sobre-humanos.

Invasões Francesas no chafariz de Arruda dos Vinhos


No entanto, no dia 16 de outubro de 1810, Massena decidiu fazer o reconhecimento às linhas inimigas subindo o Sobral pela estrada da Zebreira, estendeu os olhos pela vastidão das obras, compreendendo o que as mesmas valiam. “Seria, pois, uma loucura temerária o ataque a quem se encontrava tão formidavelmente defendido, com tão grande moral e propósito firme de não se deixar vencer” (As famosas Linhas de Torres in A HORA).

Foi então que “deixou num muro, a pequena distância, o seu óculo de campanha. Nisto, de uma bateria de qualquer dos redutos aliados, manifestamente disparado na direção do grupo, caiu uma granada que bateu no referido muro, a poucos passos onde se encontrava o mencionado óculo do célebre marechal de Napoleão. Compreendendo este o claro aviso de retirar-se, tirando chapéu, cortêsmente saudou o inimigo e, implicitamente, a própria formidável linha de redutos, que, pela voz potente da sua artilharia, também acabara de o cumprimentar, ainda que de forma um pouco brusca…” Apesar da Vila se encontrar desprotegida, “o vale de Arruda estava maravilhosamente defendido” (As famosas Linhas de Torres in A HORA).

Durante 4 semanas esteve a cavalaria do Corpo do Exército de Ney em Arruda. “Pela sua posição especial, esta povoação esteve sempre, mais ou menos, ocupada pela cavalaria inimiga” (As famosas Linhas de Torres in A HORA). As tropas “acoitaram-se em adegas da região, saqueando a vila, destruindo arquivos, profanando a igreja, roubando dali muitas alfaias, ficando famoso o roubo do trono de prata da Padroeira, Senhora da Salvação” (Rogeiro, 1997:28).

“Só algumas horas depois do nascimento do Sol [no dia 15 de novembro de 1810] a atmosfera limpou, e então se verificou que os Franceses haviam abandonado as suas posições, como se disse, numa habilidosa manobra, a que o próprio Wellington fez inteira justiça” (As famosas Linhas de Torres in A HORA).

O General Wellington foi o responsável pela construção das Linhas de Torres que deram origem a um dos mais notáveis acontecimentos militares de todos os tempos. A 1.ª Linha de Defesa, onde se incluem as fortificações de Arruda (Cego, Carvalha e Passo) foi a linha defensiva de toda a Península de Torres Vedras e totalmente intransponível, pelo que a Vila de Arruda, situada a norte das Linhas, sofreu a política da terra queimada, os arrudenses deixaram as suas casas e enterraram os seus haveres, em defesa da capital e do país.
 
Foi no nosso concelho, e nos concelhos que participaram na construção destas Linhas, que Napoleão I se deparou com uma viragem na sua carreira vitoriosa. Foi uma viragem que consagrou “a nossa integridade como país livre (As famosas Linhas de Torres in A HORA).

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